João Belarmino Lopes
Para nós o João Belo
Um homem simples, um leitor voraz e um contador de histórias extraordinário. Esse era o meu pai.
Ao meu pai, que me ensinou a amar os livros
Há pessoas que atravessam a vida acumulando bens. Outras escolhem, mesmo sem perceber, deixar riquezas que o tempo não consome: valores, ensinamentos, memórias e sementes que continuam florescendo nas gerações seguintes.
Meu pai, João Belarmino Lopes, foi uma dessas pessoas.
Embora não tenha tido a oportunidade de concluir seus estudos formais, fez dos livros a sua escola e da curiosidade o seu caminho para compreender o mundo. Foi um leitor extraordinário, um homem inteligente, atento e apaixonado pelo conhecimento. Tinha uma memória admirável e o raro dom de contar histórias. Quando falava, as palavras ganhavam vida, os personagens pareciam entrar na sala e a imaginação de quem o ouvia aprendia a viajar.
Foi ele quem, quando eu tinha apenas oito anos, colocou em minhas mãos os meus primeiros livros: um sobre a vida de Jesus e outro sobre a trajetória de Rui Barbosa, o homem que inspirou o meu nome.
Naquele tempo, eu ainda não poderia compreender a grandeza daquele gesto. Eram apenas dois livros aos olhos de uma criança, mas, nas mãos de um pai, eram sementes. E meu pai as plantou em mim com a simplicidade de quem talvez não soubesse que estava ajudando a escrever o início da minha própria história.
Os anos passaram, a criança cresceu, tornou-se consultor e, mais tarde, autor. Hoje, ao olhar para os livros que escrevi e para todos aqueles que ainda desejo escrever, reconheço a origem dessa caminhada. Antes das minhas palavras, vieram as palavras que meu pai me ensinou a amar. Antes de eu me tornar escritor, houve um homem que me apresentou o poder transformador da leitura.
Por isso, cada página que escrevo guarda um pouco da sua presença. Em cada ideia compartilhada, em cada reflexão e em cada livro publicado, existe algo do menino que recebeu aqueles primeiros livros das mãos do pai — e nunca mais deixou de acreditar na força do conhecimento.
Foi você, pai, quem me ensinou que ler é abrir portas para mundos que ainda não conhecemos; que o saber transforma aquilo que somos; e que a verdadeira riqueza não está apenas no que conquistamos, mas no que aprendemos, vivemos e compartilhamos com os outros.
Eu gostaria muito que você ainda estivesse aqui para celebrarmos juntos este momento. Gostaria de lhe mostrar meus livros, conversar sobre cada um deles e agradecer, olhando em seus olhos, pelo caminho que começou naquele gesto tão simples e tão grandioso.
Como isso já não é possível, transformo estas palavras em abraço, esta página em memória e cada livro que escrevo em uma forma de dizer: obrigado, pai.
Obrigado pelas histórias, pelas conversas, pelos exemplos e por ter despertado em mim o amor pela leitura. Obrigado pelo homem que você foi e pelo legado que deixou.
Você continua vivo em minhas lembranças, nos valores que carrego, nas histórias que conto e nas páginas que escrevo.
Se hoje sou autor, é porque, muito antes, você me ensinou a ser leitor.
Com amor, saudade e eterna gratidão,
Ruy Lopes

🌙 Noites de histórias e estrelas
Lembro com ternura das noites na fazenda, quando nos reuníamos ao redor da cadeira de balanço, pai João Belo e e mãe Neném (Maria José) lado a lado, sob o céu estrelado, para ouvir suas histórias. Cada palavra parecia ganhar vida na voz do papai — histórias que misturavam sabedoria, humor e imaginação — enquanto mamãe, com seu olhar firme e espírito empreendedor, nos inspirava com exemplos de coragem, trabalho e amor.
Esses momentos simples, mas cheios de significado, fizeram da minha infância um tempo de encanto e aprendizado, e permanecem como um tesouro em minhas memórias.
São lembranças que continuam a me inspirar a valorizar a família, a curiosidade, o empreendedorismo e o poder de uma boa história bem contada.
Foi nessa varanda onde tudo aconteceu.